segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ilusionismo





Ah!  como custei
a descobrir os teus truques!
Lenços, pombas, fitas,
coelhos, baralhos e cartolas...
Escondias na manga
os teus pensamentos mais secretos.
E sorrias!
Uma moedinha sob a ponta da orelha
aparecia brilhando...
As mãos viradas e reviradas: nada!
Nada?

Porto Alegre, 03/10/1984
(revisado em ago 2014)


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Um barco e nada mais


O nome ainda aparecia bem nítido: "Vencedor" 
- Aquele era o meu iate",
exclamou meu avô,
o velho Germano,
muito magro e alto.
À margem do São Gonçalo,
em terra, escorado,
um barco de madeira apodrecia ao relento.
Fazia uma figura bonita, meu avô,
com seu cabelo branco,
levemente amarelado.
Vestia um casacão pêlo-de-camelo
e olhava o barco abandonado.
Não falou mais nada,
nem eu.
Tinha certo ar superior,
de quem teve tudo na vida,
o meu avô.
Todo o luxo, todo o prazer,
mas nada de revolta por
ter tudo perdido.
- Muito prazer, ouvi falar muito de você",
poderia eu ter dito para o barco.
- "Seu antigo comandante,
depois do jantar,
contava dos temporais na Lagoa,
no caminho entre São Lourenço e Rio Grande.
Contava da lua-de-mel passada a bordo,
em meio a uma tempestade.
A doce Celina dormia,
inconsciente do perigo,
e ele temia!
Mas não disse nada.
Voltamos para casa,
os dois,
trilhando as calçadas da cidade
sob um sol que se punha lentamente...


Porto Alegre, 1973