domingo, 1 de maio de 2011

O nome certo


Neste texto, tentei, seguindo a lição de Antoine Albalat fazer um pastiche daqueles escritores da geração "Beat" - álcool, drogas, sexo e, nem tanto rock and roll. Não foi muito dífícil, pois aquele pessoal - a geração "Beat"-  não era grande coisa mesmo. 

Quando foi embora, disse que ficara  aqui 16 horas. Nunca alguém havia contado o tempo que ficara comigo. Mas não havia nada de estranho nela. Era uma bela mulher: morena, boa estatura,  disse que tinha 32 anos – mas elas sempre mentem – e que ganhava a vida fazendo traduções.

Desde que chegou, não paramos de beber. Quando terminamos a primeira garrafa de vinho, ela quis fumar. Enrolamos um e fumamos. Ouvimos música, ela queria rock, mas eu não tinha nada; então ligamos numa rádio. Ficamos sentados, só ouvindo, olhos fechados. Perguntou se eu queria fazer sexo. Para mim, tanto fazia. Então, levantou, veio na minha direção, pegou minha mão e me puxou para o quarto, para a cama. Ela tomou a iniciativa, tirou a minha roupa e se despiu.

Eu não consegui gozar, mas ela não se importou. Ficamos um longo tempo deitados, acordados, sem falar nada. Nus, voltamos para a sala e recomeçamos a beber. Agora ela queria cheirar, mas eu não tinha nada. Então, pediu para enrolar outro. Dei a erva para ela e se serviu.

Gostei dela porque não cobrou pela companhia me fazendo ouvir os seus dramas. Ela só queria estar ali, nua, fumando, bebendo e fazendo sexo. Ah! E ouvindo rock no rádio. Chapado, até nem me importava em ouvir rock. Há certa hora, ela se assustou, eram os galhos dos ciprestes, batidos pelo vento, chicoteando na parede do prédio. Quando expliquei, ela acalmou.

Não quis saber nada da minha vida. Apenas perguntou se eu amara alguém. Falei que sim. Ficou num longo silêncio depois que eu respondi. Então, disse que só se ama uma vez na vida. Eu já havia lido isso, ou algo parecido. Não sei porque, mas lembrei Somerset Maughan; aqueles romances meio cafonas, mas tão ternos. Li quase todos. Acho que lembrei porque essa sala tem ventilador de teto, está sempre escura e quando ela estava aqui, fazia calor, como um ambiente dos mares do sul.

Foi ao banheiro e não fechou a porta. Sempre nua e descalça. Voltou e sentou na poltrona em frente à que eu estava.

– Nunca fiquei com alguém com uma diferença de idade tão grande...

– É eu devo ter 20 mais que você.

– Está amanhecendo...

– Está; passamos a noite acordados...

– Quer dormir?

– Você quer?

Não respondeu, mas levantou e foi para o quarto. Eu fiquei olhando as garrafas de vinho que havíamos bebido. Eram três, de gargalo fino e comprido, com rótulos dourados. O sono veio e eu dormi sentado, ouvindo rock e olhando as garrafas vazias. Acordei quando ela, vestida, voltou para a sala e falou que tinha de ir embora. Foi aí é que fez a referência às 16 horas que havíamos passados juntos.

E aproveitou para corrigir:

– Meu nome não é Flávia.

– Não!?

– É Luisa...

Não pedi desculpa, não falei nada. Ela não estava com jeito de estar magoada. Apenas fizera uma correção. Mas, de qualquer modo, isso era importante para ela, que eu registrasse o nome correto.

janeiro 2008/ Porto Alegre

Nenhum comentário: