segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cidade Baixa





É sábado
e eles
estão bêbados.
São negros.
Dois a dois,
encostados, parecem pendurados à parede azul.
Ali, de pé, duros, babam ...
As cabeças balançam de leve:
um pouco para frente,
um pouco para o lado.
É o único movimento que fazem.
Quase dormem em pé,
num equilíbrio tão difícil!
No Areal da Baronesa,
em torno,
nada se mexe.
Não há nem brisa no ar.
Os dois negros bêbados, em pé, escorados na parede encardida do bar,
são como gêmeos,
irmãos em farrapos.
Mais adiante, o casario traça uma perspectiva antiga.
Mulheres conversam e crianças brincam às portas.
Por aqui, por ali, corria o Arroio Dilúvio,
o arroio que inundava a Ilhota.
A Ilhota, o Areal da Baronesa...

Porto Alegre, 1971

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