quarta-feira, 27 de abril de 2011

O verão com Sílvia



Este foi o primeiro conto que escrevi. É meio bobinho, mas, vá lá! Como experiência, pelo menos, valeu... 
Ele tem uma certa leveza, um tom ingênuo que me agrada. 
E me deu a chance de mencionar fatos, coisas e situações da época em que imaginei o transcurso da narrativa.



O verão com Sílvia


Para Cristine, que ama um pelotense...


Era carioca e se chamava Sílvia; os pais tinham vindo passar as festas de fim-de-ano com os parentes do Sul.
O que me deslumbrou, na hora, foi o cabelo: castanho, liso, muito liso, escorrido. Nenhuma guria que eu conhecia tinha cabelo assim, caindo abaixo dos ombros, quase alcançando o meio das costas. Ah! e também o porte; ela era esbelta, elegante. Geralmente vestia blusa, quase sempre branca, e saia.
A primeira vez que a vi foi no final de uma manhã tépida. Ainda não havia começado de fato a fazer o calor forte do verão. Estávamos todos na casa do primo dela, um bangalô de meio de quadra, dobrando a esquina da rua onde eu morava. Em torno da casa havia muito verde, arbustos, flores, algumas árvores mais para o fundo, no pátio.
— Que brinquedo bonito!
Hummm... aquilo me dizia respeito! O brinquedo era meu: uma reprodução bem feita de um desses equipamentos usados na construção de estradas.
— É amarelo. Gosto do amarelo.
Sim, era de plástico amarelo, bem dessa cor de máquinas rodoviárias.
Assim nos conhecemos. Sem apresentações. Soube do nome dela mais tarde, ouvindo-a ser chamada pelo primo e pelo irmão mais novo, que viera junto.
— É como aquelas máquinas de Brasília.
Uau! ela conhecia o mundo.
— Brasília?
— É, meu pai vai a Brasília seguido. Uma vez, nos levou junto, toda a família. Fomos de avião, de manhã e voltamos à tarde. Foi lá que vi máquinas assim. No Rio nunca tinha visto uma de perto.
— Ah!
Só me ocorreu uma exclamação, eu não sabia mesmo o que dizer.
Mas ela era fascinante, eu precisava prender sua atenção. E aventurei:
— Meu pai é contra Brasília. Ele detesta o Juscelino.
— O meu é a favor. Ele adora o Juscelino.
Hum..., que mancada.
Resolvi mudar de assunto logo:
— Vocês vão ficar aqui por quanto tempo?
— Acho que mais uma semana. O Fernando e a Marília vão ao Uruguai, visitar outros parentes. Mas resolveram deixar a gente aqui. Vão só eles...
— Quem é Fernando e Marília?!
— Ah! nós chamamos papai e mamãe, chamamos pelo nome. Eu e o meu irmão os chamamos assim.
Bah! pensei: que coisa chique. A maioria dos meus amigos chamava pai e mãe de senhor e senhora... Eu me considerava moderno por usar só “pai” e “mãe”...
E justamente naquela hora, que a conversa estava engrenando, a tia dela, a dona da casa, aparece para avisar que minha mãe telefonara me chamando para o almoço.
Durante a tarde eu não consegui voltar a ver Sílvia. Tive de levar um texto sobre as férias, que havia escrito para o programa de rádio do colégio na rádio dos padres. Bom, mas pelo menos eu podia contar isso para ela, que iam ler o meu texto na rádio. Talvez ficasse impressionada.
Depois, precisava passar na casa de outro guri, para devolver as “Eletrônica Popular” que o pai dele havia me emprestado. Era curioso, o pai do meu amigo mantinha, na mesma estante, a coleção da revistas lado a lado com livros da Editora Vitória, que editava livros comunistas! Na época, claro, eu não tinha a menor idéia do que eram aqueles livros. Em todo caso, revistas de eletrônica e livros sobre comunismo eram mistura bem heterogênea!
À noite, porém, tive sorte. De tardezinha, o primo dela passou lá em casa e me convidou para jogar cartas com eles. Como ainda tivesse de tomar banho e jantar, quando cheguei no bangalô, já estavam jogando. Apenas Sílvia não jogava. Ao me ver na casa, fez um sinal para que saíssemos dali.
Fomos para o jardim. No início, não falamos nada. Até que ela convidou:
— Vamos dar uma volta na quadra?
Aceitei, cruzamos o portão e viramos à direita... Fomos até a esquina, dobramos e continuamos caminhando.
A certa altura, ela segurou a minha mão. Ah! eu nunca tinha andado de mãos dadas com uma garota. Que sonho! Continuamos caminhando assim, de mãos dadas; sem falar nada. Olhei para o céu, dava para ver as Três Marias e o Cruzeiro do Sul.
— Você (ah! como é doce o você dos cariocas!) conhece as constelações?
— Não, só essas duas... mas elas são tão óbvias, não é?
— É.
E acrescentou:
— Como o céu daqui é claro, parece transparente... Como tem estrelas! Tem mais estrelas aqui do que no Rio.
— Não pode ser... o céu é o mesmo...
— Tem sim, aqui tem mais...
Bem, eu não iria contrariar a mulher que amava... Pois, sim, eu já estava apaixonado. E pela segunda vez — (a primeira fora uma inglesinha (!) que morava na casa em frente à nossa, mas o pai dela, que era gerente do Anglo, o frigorífico, teve de voltar para a Inglaterra.
Dobramos mais uma esquina e passamos na frente matriz da paróquia.
Puxei-a pela mão e mudamos de calçada. Ela deixou-se levar. Da outra calçada, dava para ver, lá no alto da torre principal, a estátua do Cristo com o coração iluminado.
— Olha, o coração vermelho...
— É mesmo...
Continuamos a caminhar. Em determinado altura, os muros formavam um recuo e criavam um campo de sombra.
Aí, foi a vez dela me puxar pela mão. Foi me levando lentamente para o recanto escuro...
— Queres um beijo?
Eu não estava preparado para isso. Eu era apenas um menino romântico... Gelei na hora... Mas, em seguida, um sentimento cálido se espalhou por todo o meu corpo...
— Quero sim...
Então, ela aproximou os lábios dos meus e beijou suavemente... Senti que parecia flutuar, os olhos fechados, um torpor, uma dormência... O que durou segundos pareceu horas, até que acordei com ela falando bem baixinho e perto do meu ouvido:
— Gostou, gauchinho...?
— Gostei... muito...
— É teu primeiro beijo?
Meio encabulado, mas honestamente, respondi que sim, fora o meu primeiro beijo.
Voltamos a nos dar as mãos e continuamos a caminhar.
Depois de alguns passos, falei:
— Não sou gaúcho, sou pelotense...
Ela riu e disse apenas:
— Pretensioso...
Não falamos mais nada... Terminamos de dar a volta na quadra e quando nos aproximamos da casa do meu amigo, soltamos as mãos...
Entramos e constatei, surpreso, que ninguém havia dado falta de nós. Ninguém notara que saíramos os dois sozinhos... Suspirei aliviado e deixei-me ficar olhando os que jogavam... Mas meus olhos não viam nada...

Passo de Torres/SC, abril/2006

terça-feira, 26 de abril de 2011

Descasamento


Vende-se um par de alianças sem solda.
Cravejada de brilhantes.
Duros.
Cada pedra,
o nosso ex-amor cristalizado em estelar composição.
Um anel de diamante,
solitário,
também se vende.


Porto Alegre, 1971

sábado, 23 de abril de 2011

Casamento


Os nossos livros
misturados na estante...
Nossos gostos diferentes.
O teu Drummond,
o meu Quintana.
O teu Sinal Semafórico,
o meu Itinerário de Pasargada.
Os teus Borges,
os meus Sábato.
Amas os latinos e os franceses.
Eu prefiro os nacionais e os ingleses modernos.
Ah! caio nas tuas tentações
de Márquez, Llosa e Cortazar...
Mas logo desisto,
com uma saudade de Jorge Amado,
Jubiabá,
Mar Morto,
Capitães de Areia...


Porto Alegre, 1973

sexta-feira, 22 de abril de 2011

De um homem apaixonado


Calça de veludo
negro
e blusa
amarela...
Vinhas assim,
luminosa,
por entre as árvores.
O sol se punha lá atrás
e caminhavas descuidada.
Depois, a prosaica massa com sardinha
no apartamento pequeno em frente à praça,
o sofá
e as marcas dos meus tênis
no branco da parede ...


Porto Alegre, 1972

Foz


Nome tão pequeno para tantas possibilizades.
Pode lembrar partidas, mas, também, chegadas.
Descortina o oceano,
resguarda o rio.
É caminho de ida, é caminho de volta.
Saudades ficam, esperanças se abrem.
Ela fica sempre ali, melancólica, a foz;
garganta comprida
esgoelada pelas enormes pedras dos molhes.


Passo de Torres, 22-04-2011

Três poemas para mulheres maduras

Um ex-colega dos tempos do Colegial, que que se esforça para ser poeta e é agitador cultural,  enviou-me algumas publicações dele e de seus confrades. 
Li e resolvi me impor um desafio: escrever tão mal como eles.
Então, fiz os três poemas que vão a seguir e que acabaram me frustrando, pois não, não consegui escrever tão mal assim...
E, afinal, publicados na net,  pelo que já me disseram, estes versinhos fazem sucesso entre as mulheres maduras...

Para Maria Celeste, que ajudou a recuperar estes poemas...(*)


Primeiro

Olha-te... não no espelho real.
Examina-te, em vez disso, no espelho da alma.
Os teus olhos: não é que eles incendeiam uma certa luz intensa?
E o rosto? Ah! teu rosto é suave e redondo.
O teu porte elegante.
És uma bela mulher.
O que esperas?
Por que estas pernas bem feitas não saem em busca da aventura?
Ah! sei, já andaram por caminhos inesperados e sedutores?
Então, por que estão como navios encostados no cais da solidão?
Insegurança, medo?
Vem, me dá a mão e vamos seguir por mais um trecho desconhecido.
Sei que vais gostar...


Segundo

O dia nasceu com um sol brilhante.
Afastas a cortina e observas as cores lustrosas das folhas verdes.
Sim, é primavera!
Não é primavera no teu coração?
Pois era para ser.
É para ser sempre primavera no teu coração.
Tens um sorriso sedutor,
uns olhos convidativos,
um andar que atrai os olhares dos homens.
Por que te sentes no inverno da vida?
Nada disso!
Desperta, abre os olhos para o verde da tua vida,
para a seiva que alimenta o teu afeto,
para o vento renova os sentimentos...
Vem, mulher, retoma o destino nas tuas mãos!
Deixa para lá essa história de tempo que passou.
O que te importa é o futuro;
é nele que vais reencontrar a satisfação dos desejos que não esqueceste.

Terceiro

Os homens não valem a pena?
Os homens são todos iguais?
Os homens só querem sexo?
Sim, pode ser.
Mas, o que importa, assim no amor - como na vida mesmo, em tudo na vida -, é persistir na busca.
Não deixa que a experiência frustrada impeça a procura pelo que tu sabes que existe e queres.
Há homens que valem a pena!
Há homens que são diferentes!
Há homens que pensam em sexo, mas não só em sexo.
Afinal, tu também não pensas em sexo?

Passo de Torres/SC - set-2008


* Eu os havia perdido, mas a Celeste por sorte tinha uma cópia

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Desobediência



Me ensinaram que nunca
se deve começar uma frase com pronome oblíquo.
Também me ensinaram
que devemos amar o próximo como a nós mesmos.
A freirinha (“ma soeur”) aterrorizava
os meninos do Jardim de Infância
com a possibilidade dos castigos do Inferno.
Que pecados podem cometer os meninos
do Jardim de Infância?
Que pecado aterrorizar os meninos
do Jardim de Infância com castigos infernais!
Me ensinaram que nunca se deve começar uma frase com pronome oblíquo.
Me ensinaram que devemos amar ao próximo como a nós mesmos.
Coisas difíceis de obedecer.

Porto Alegre, 1971

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cidade Baixa





É sábado
e eles
estão bêbados.
São negros.
Dois a dois,
encostados, parecem pendurados à parede azul.
Ali, de pé, duros, babam ...
As cabeças balançam de leve:
um pouco para frente,
um pouco para o lado.
É o único movimento que fazem.
Quase dormem em pé,
num equilíbrio tão difícil!
No Areal da Baronesa,
em torno,
nada se mexe.
Não há nem brisa no ar.
Os dois negros bêbados, em pé, escorados na parede encardida do bar,
são como gêmeos,
irmãos em farrapos.
Mais adiante, o casario traça uma perspectiva antiga.
Mulheres conversam e crianças brincam às portas.
Por aqui, por ali, corria o Arroio Dilúvio,
o arroio que inundava a Ilhota.
A Ilhota, o Areal da Baronesa...

Porto Alegre, 1971