sábado, 8 de outubro de 2011

As ciclistas de Florença

As ciclistas,
as ciclistas florentinas.
Impacientes e
lindas,
deslizam velozes sobre
as pedras milenares no entorno da Catedral.
A fila dos turistas que sobem para a "cupola" toma-lhes o espaço,
mas, lá vão elas. Ou vêm.
Passam uns rapazes também, e até uns velhos. Todos pedalando.
Mas estes não interessam.
Lá vão elas, e vêm, louras, morenas, até orientais (japonesa, chinesa, coreana, que sei eu).
Todas "bellissime"

Florença, It, set. 2011



sexta-feira, 13 de maio de 2011

Paixão


Carinhos furtivos,
beijos rápidos...
Ir, vir,
e afligir...


(Porto Alegre, 1972)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O mal do século



Ah! o mal do século.
Com a virada do século,
o Mal do Século deixou os alvéolos
e
 se
   encastelou
     nas
       almas...

Porto Alegre, 1971
(Século passado, portanto)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O pó da terra



Os campos já foram semeados.
Veio o arado,
a grade,
a semente.
Tudo misturado ao pó da terra.
A cidade, ao longe, está envolta numa névoa vermelha.
É a alma da terra, moribunda,
lentamente indo para o Céu.


Região do Planalto/RS, 1971

domingo, 1 de maio de 2011

Um poema soturno


A luz apagou
e não vi mais o tempo...
Fiquei sonhando.
Ouvindo o tempo
bater de leve.
E você, por que não veio?

Pelotas, 1963

terça-feira, 26 de abril de 2011

Descasamento


Vende-se um par de alianças sem solda.
Cravejada de brilhantes.
Duros.
Cada pedra,
o nosso ex-amor cristalizado em estelar composição.
Um anel de diamante,
solitário,
também se vende.


Porto Alegre, 1971

sábado, 23 de abril de 2011

Casamento


Os nossos livros
misturados na estante...
Nossos gostos diferentes.
O teu Drummond,
o meu Quintana.
O teu Sinal Semafórico,
o meu Itinerário de Pasargada.
Os teus Borges,
os meus Sábato.
Amas os latinos e os franceses.
Eu prefiro os nacionais e os ingleses modernos.
Ah! caio nas tuas tentações
de Márquez, Llosa e Cortazar...
Mas logo desisto,
com uma saudade de Jorge Amado,
Jubiabá,
Mar Morto,
Capitães de Areia...


Porto Alegre, 1973

sexta-feira, 22 de abril de 2011

De um homem apaixonado


Calça de veludo
negro
e blusa
amarela...
Vinhas assim,
luminosa,
por entre as árvores.
O sol se punha lá atrás
e caminhavas descuidada.
Depois, a prosaica massa com sardinha
no apartamento pequeno em frente à praça,
o sofá
e as marcas dos meus tênis
no branco da parede ...


Porto Alegre, 1972

Foz


Nome tão pequeno para tantas possibilizades.
Pode lembrar partidas, mas, também, chegadas.
Descortina o oceano,
resguarda o rio.
É caminho de ida, é caminho de volta.
Saudades ficam, esperanças se abrem.
Ela fica sempre ali, melancólica, a foz;
garganta comprida
esgoelada pelas enormes pedras dos molhes.


Passo de Torres, 22-04-2011

Três poemas para mulheres maduras

Um ex-colega dos tempos do Colegial, que que se esforça para ser poeta e é agitador cultural,  enviou-me algumas publicações dele e de seus confrades. 
Li e resolvi me impor um desafio: escrever tão mal como eles.
Então, fiz os três poemas que vão a seguir e que acabaram me frustrando, pois não, não consegui escrever tão mal assim...
E, afinal, publicados na net,  pelo que já me disseram, estes versinhos fazem sucesso entre as mulheres maduras...

Para Maria Celeste, que ajudou a recuperar estes poemas...(*)


Primeiro

Olha-te... não no espelho real.
Examina-te, em vez disso, no espelho da alma.
Os teus olhos: não é que eles incendeiam uma certa luz intensa?
E o rosto? Ah! teu rosto é suave e redondo.
O teu porte elegante.
És uma bela mulher.
O que esperas?
Por que estas pernas bem feitas não saem em busca da aventura?
Ah! sei, já andaram por caminhos inesperados e sedutores?
Então, por que estão como navios encostados no cais da solidão?
Insegurança, medo?
Vem, me dá a mão e vamos seguir por mais um trecho desconhecido.
Sei que vais gostar...


Segundo

O dia nasceu com um sol brilhante.
Afastas a cortina e observas as cores lustrosas das folhas verdes.
Sim, é primavera!
Não é primavera no teu coração?
Pois era para ser.
É para ser sempre primavera no teu coração.
Tens um sorriso sedutor,
uns olhos convidativos,
um andar que atrai os olhares dos homens.
Por que te sentes no inverno da vida?
Nada disso!
Desperta, abre os olhos para o verde da tua vida,
para a seiva que alimenta o teu afeto,
para o vento renova os sentimentos...
Vem, mulher, retoma o destino nas tuas mãos!
Deixa para lá essa história de tempo que passou.
O que te importa é o futuro;
é nele que vais reencontrar a satisfação dos desejos que não esqueceste.

Terceiro

Os homens não valem a pena?
Os homens são todos iguais?
Os homens só querem sexo?
Sim, pode ser.
Mas, o que importa, assim no amor - como na vida mesmo, em tudo na vida -, é persistir na busca.
Não deixa que a experiência frustrada impeça a procura pelo que tu sabes que existe e queres.
Há homens que valem a pena!
Há homens que são diferentes!
Há homens que pensam em sexo, mas não só em sexo.
Afinal, tu também não pensas em sexo?

Passo de Torres/SC - set-2008


* Eu os havia perdido, mas a Celeste por sorte tinha uma cópia

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Desobediência



Me ensinaram que nunca
se deve começar uma frase com pronome oblíquo.
Também me ensinaram
que devemos amar o próximo como a nós mesmos.
A freirinha (“ma soeur”) aterrorizava
os meninos do Jardim de Infância
com a possibilidade dos castigos do Inferno.
Que pecados podem cometer os meninos
do Jardim de Infância?
Que pecado aterrorizar os meninos
do Jardim de Infância com castigos infernais!
Me ensinaram que nunca se deve começar uma frase com pronome oblíquo.
Me ensinaram que devemos amar ao próximo como a nós mesmos.
Coisas difíceis de obedecer.

Porto Alegre, 1971

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cidade Baixa





É sábado
e eles
estão bêbados.
São negros.
Dois a dois,
encostados, parecem pendurados à parede azul.
Ali, de pé, duros, babam ...
As cabeças balançam de leve:
um pouco para frente,
um pouco para o lado.
É o único movimento que fazem.
Quase dormem em pé,
num equilíbrio tão difícil!
No Areal da Baronesa,
em torno,
nada se mexe.
Não há nem brisa no ar.
Os dois negros bêbados, em pé, escorados na parede encardida do bar,
são como gêmeos,
irmãos em farrapos.
Mais adiante, o casario traça uma perspectiva antiga.
Mulheres conversam e crianças brincam às portas.
Por aqui, por ali, corria o Arroio Dilúvio,
o arroio que inundava a Ilhota.
A Ilhota, o Areal da Baronesa...

Porto Alegre, 1971