sábado, 8 de outubro de 2011

As ciclistas de Florença

As ciclistas,
as ciclistas florentinas.
Impacientes e
lindas,
deslizam velozes sobre
as pedras milenares no entorno da Catedral.
A fila dos turistas que sobem para a "cupola" toma-lhes o espaço,
mas, lá vão elas. Ou vêm.
Passam uns rapazes também, e até uns velhos. Todos pedalando.
Mas estes não interessam.
Lá vão elas, e vêm, louras, morenas, até orientais (japonesa, chinesa, coreana, que sei eu).
Todas "bellissime"

Florença, It, set. 2011



sexta-feira, 13 de maio de 2011

Paixão


Carinhos furtivos,
beijos rápidos...
Ir, vir,
e afligir...


(Porto Alegre, 1972)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O mal do século



Ah! o mal do século.
Com a virada do século,
o Mal do Século deixou os alvéolos
e
 se
   encastelou
     nas
       almas...

Porto Alegre, 1971
(Século passado, portanto)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Um conto triste

Este conto é outro que é só ficção, com apenas algumas referências ao ambiente real. Curiosamente, ele ficou totalmente pronto, mentalizado, antes de ser escrito. Mais um exercício de imaginação. Uma tentativa de apreender, sintetizar, um pouco da dor das relações humanas. Inspirado nos contos de Nélson Rodrigues? Talvez...

- Alô!
- Oi! Flávio...
Ficou uns poucos segundos em silêncio, mudo e paralisado. Aquela voz parecia ter acordado uma serpente que se enroscara nas suas vísceras e agora as estrangulava. Sentia as mãos trêmulas, a boca seca e o coração em disparada. Enfim recuperou-se o suficiente para murmurar:
- Sim, querida.
Nunca havia se dirigido assim a ela, mas o complexo de emoções desencadeados quando ouviu a voz da mulher que amava o fez trair-se, perder o controle, escancarar perante ela a paixão que sempre  procurava esconder.
Uma paixão que ela sabia existir, sim, pois, mesmo sem falar, mesmo sem dizê-lo, era só ele postar-se diante dela que todo o seu ser transparecia um amor impossível de ser encoberto.
Ela fez que não percebeu e falou, seca e objetiva:
- Preciso falar contigo.
Deteve-se alguns segundos e quis saber se era urgente.
- Sim, é urgente!
- Sim, o que é então?
- Não posso falar agora..., não por telefone. Precisa ser pessoalmente.
Era sábado pela manhã, Flávio estava no escritório da firma da família, tinha muito trabalho ainda para concluir. Por ele, largaria tudo e sairia correndo para se jogar aos pés dela, mas resignado falou que naquela manhã seria impossível, também à tarde não daria.
- Só amanhã...
Sem esconder um traço de contrariedade, ela respondeu que, então, sim.
- Mas sem falta, então?
- Sim, prometo.
Combinaram que se encontrariam no domingo, no início da tarde e despediram-se.
Quando desligou o aparelho, notou que suas mãos ainda estava tremulas. Permaneceu mais um momento imóvel, o olhar fixo numa gravura pendurada na parede em frente à escrivaninha onde estava acomodado. Era um retrato de Getúlio Vargas, que ocupava lugar de destaque naquele ambiente sóbrio, e tinha por legenda a frase: “Deixo a vida para entrar na história”.
Flávio olhava para a imagem de Getúlio, mas não via nada. Ou melhor, na sua imaginação, via Cecília como que materializada a sua frente, ali, naquela sala.
Depois, desconsolado, voltou ao trabalho, mas o tempo todo a imagem de Cecília, a voz dela, o fato dela procurá-lo, tudo isso perturbava a sua atenção. Vez por outra errava alguma coisa do que estava fazendo, tinha de corrigir, retificar. E assim passou o resto do dia.
O domingo amanheceu radioso, com um céu muito azul. Era novembro e já fazia muito calor. Impaciente, Flávio acordou cedo. A família - o pai, a mãe e a irmã  - preparavam-se para ir à missa das dez. Ele, por sua vez, tratou de tomar um café rápido e foi ler o jornal.  A agitação do dia anterior, causa pelo telefonema de Cecília, dera lugar a uma calma que o surpreendia.
Resolveu ir à missa das 11, para ver se a encontrava, vê-la mesmo que fosse ao longe. Terminou a leitura, vestiu uma roupa leve, mas ainda assim de paletó e gravata, pois era obediente à norma imposta pelo pai: “Um homem não vai a lugar nenhum sem paletó e gravata”. Para seu desalento, ela não estava na igreja. Encontrou Lúcia, prima de Cecília, uma morena bonita que gostava dele, mas pela qual não sentia a menor atração. Ao fim da missa, à saída, ela deu um jeito de aproximar-se. Tentou puxar conversa, mas enquanto ela falava, seu olhar perdia-se em direção às pessoas que iam deixando a igreja.
Despeitada, encerrou o assédio com uma observação dita em tom irônico:
- É, tua queridinha não veio. i
Flávio enrubesceu, gaguejou uma despedida, virou-se e saiu a passos lentos. Lúcia fixou plantada onde estava, sentindo o coração doído, frustrada e com raiva, dele, de Cecília e de si mesa. "E aquela boba, que só quer saber do canalha do Luciano...", pensou enquanto retomava, sozinha, o caminho para casa.
Então, chegou a tarde. Como haviam combinado, Flávio apanhou Cecília na casa dela, como se estivessem saindo para um passeio. A família dela ficou encantada quando soube que os dois iam sair. O pai e mãe viam nele o genro dos sonhos. Rapaz bonito, educado, de ótima família, já com um cargo importante na empresa do pai. Um ótimo partido portanto. Bem diferente daquele desconhecido,que recém chegara à cidade para trabalhar como locutor na nova estação.
E pelo qual Cecília se apaixonara mal batera com os olhos nele. Já na primeira vez que se encontraram, Cecília ficou arrebatada pelo jeito irreverente de Luciano, um moreno alto, de olhos verdes, cabelo sempre bem penteado e impecavelmente vestido. E com muita lábia, como se dizia na época, muito convincente, aliciador, tanto na tarefa de conseguir anunciantes para os programas que apresentava - todos românticos -, quando para fazerem-se render os corações das lindas (ou ricas) mulheres que por ventura o interessassem.
Cecília não ousavam aparecer juntos com Luciano, pois sabia que os pais desaprovariam o romance, mas os amigos e conhecidos sabiam de tudo.
Da porta da casa até o carro, Flávio e Cecília permaneceram mudos. Depois de andarem algumas quadras, Flavio finalmente perguntou o que ela queria.
- Ainda não, vamos para o Laranjal; lá eu te conto.,
O Buick azul e bege tomou a estrada que ainda era de terra e, cerca de meia-hora depois, estava parado em frente à praia ainda deserta. Só então, Cecília falou:
- Preciso casar.
Não era um "quero casar", nem um "queres casar comigo?". Era um simples, seco e, como pressentia Flavio, um aterrador "preciso casar".
- Como assim, preciso? - balbuciou Flavio.
- Estou grávida!
Não precisou perguntar de quem ela estava grávida. Percebeu tudo, mas ainda teve forças para perguntar:
-E queres casar ... comigo?
E ela respondeu apenas:
- Sim!
Não precisava explicar mais nada; estava subentendido que ela o procurava porque sabia que, pela paixão que nutria por ela, ele seria capaz de qualquer coisa.
Mas, então, a situação tomou um rumo inesperado para ela. Flávio admitiu que aceitava casar, mas - e isso foi uma idéia que lhe surgiu subitamente -, queria ficar com ela. E já, imediatamente.
Quando fez a sua contraproposta, sentiu-se tão canalha quanto Luciano. Mas foi tudo tão rápido e estava tão firmemente decidido que não havia como recuar.
Diante da firmeza e seriedade dele, e da condição totalmente vulnerável em que ela se encontrava, só lhe restou aceitar.
- Então vamos.
- Agora? Onde?
- Aqui mesmo; nossa casa de veraneio fica aqui perto. Vamos para lá.
Em minutos, estavam na casa vazia, com vista para a lagoa,  de frente para a areia branca e para as palmeiras que emolduravam a paisagem.
Fábio, enfim, aproximou-se bem dela, enlaçou-a pela cintura, e caminhou para o quarto que era destinado aos hospedes e onde havia uma cama de casal. Não ousou levá-la nem para o seu quarto nem para o quarto dos pais.
Sem falar palavra, Cecília começou a despir-se, sozinha. Ela já não tinha inibições para se desnudar diante de um homem. Primeiro desabotoou a blusa e os seios apareceram escondidos pelo soutien. Depois, soltou a saia e a deixou escorregar até o chão.
E, como fazia quando estava com o amante, encaminhou-se direto para a cama e pôs-se a esperar o homem para quem se entregaria. Flávio também estava calmo. Despiu-se completamente e, nu, deitou-se ao lado da mulher que amava, que desejava, que queria mais do que tudo no mundo.
Suas mãos correram para as costas da mulher, para tirar as últimas peças de roupa que ela vestia. Cecília tentou um gesto de resistência, mas ele foi impositivo:
- Toda nua!.
Submissa, deixou que ele lhe tirasse tudo. Enfim, com ela inteiramente nua, pôs-se a fazer o que lera e ouvira a respeito do ato sexual. Flávio era, sim, virgem. Nunca estivera com uma mulher, nunca fizera sexo.
Cecília, que fora iniciada justamente por um sórdido, com um canalha, com um homem que sabia tirar todo o prazer possível que um corpo de mulher pode proporcionar - e também dar-lhe todo o prazer que ela fosse capaz de desfrutar- deixou que Flávio dela usufruísse como quisesse.
Mas não fez um gesto, um movimento, que significasse estar participando do ato. Ela se deixou ser apenas um objeto para ele. Sequer o abraçou. Ficou com os braços inertes, pousados sobe os lençóis da cama, estirados ao longo do corpo.
Quando, enfim, terminou, ela virou o rosto para o lado contrário onde ele estava e não esconder os soluços.
Flávio permaneceu deitado, ao lado dela, pelo tempo suficiente para perceber como tudo aquilo era degradante.
Sem falar nada, levantou-se, ainda nu como estava, e dirigiu-se de pés descalços, sentindo as prosaicas formigas da areia picando seus pés, até onde estava estacionado o carro. Voltou empunhando um pequeno calibre 22. Cecília continuava com o rosto virado para o lado, os olhos abertos cravados na parede branca. Não viu quando Flávio sentou-se numa cadeira próxima a cama, olhou para o corpo desnudo no leito, ergueu a mão, apontou o revólver para a têmpora, puxou o gatilho e seu corpo deslizou inerte para o chão.

Porto Alegre, ago. 2009

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O pó da terra



Os campos já foram semeados.
Veio o arado,
a grade,
a semente.
Tudo misturado ao pó da terra.
A cidade, ao longe, está envolta numa névoa vermelha.
É a alma da terra, moribunda,
lentamente indo para o Céu.


Região do Planalto/RS, 1971

domingo, 1 de maio de 2011

O nome certo


Neste texto, tentei, seguindo a lição de Antoine Albalat fazer um pastiche daqueles escritores da geração "Beat" - álcool, drogas, sexo e, nem tanto rock and roll. Não foi muito dífícil, pois aquele pessoal - a geração "Beat"-  não era grande coisa mesmo. 

Quando foi embora, disse que ficara  aqui 16 horas. Nunca alguém havia contado o tempo que ficara comigo. Mas não havia nada de estranho nela. Era uma bela mulher: morena, boa estatura,  disse que tinha 32 anos – mas elas sempre mentem – e que ganhava a vida fazendo traduções.

Desde que chegou, não paramos de beber. Quando terminamos a primeira garrafa de vinho, ela quis fumar. Enrolamos um e fumamos. Ouvimos música, ela queria rock, mas eu não tinha nada; então ligamos numa rádio. Ficamos sentados, só ouvindo, olhos fechados. Perguntou se eu queria fazer sexo. Para mim, tanto fazia. Então, levantou, veio na minha direção, pegou minha mão e me puxou para o quarto, para a cama. Ela tomou a iniciativa, tirou a minha roupa e se despiu.

Eu não consegui gozar, mas ela não se importou. Ficamos um longo tempo deitados, acordados, sem falar nada. Nus, voltamos para a sala e recomeçamos a beber. Agora ela queria cheirar, mas eu não tinha nada. Então, pediu para enrolar outro. Dei a erva para ela e se serviu.

Gostei dela porque não cobrou pela companhia me fazendo ouvir os seus dramas. Ela só queria estar ali, nua, fumando, bebendo e fazendo sexo. Ah! E ouvindo rock no rádio. Chapado, até nem me importava em ouvir rock. Há certa hora, ela se assustou, eram os galhos dos ciprestes, batidos pelo vento, chicoteando na parede do prédio. Quando expliquei, ela acalmou.

Não quis saber nada da minha vida. Apenas perguntou se eu amara alguém. Falei que sim. Ficou num longo silêncio depois que eu respondi. Então, disse que só se ama uma vez na vida. Eu já havia lido isso, ou algo parecido. Não sei porque, mas lembrei Somerset Maughan; aqueles romances meio cafonas, mas tão ternos. Li quase todos. Acho que lembrei porque essa sala tem ventilador de teto, está sempre escura e quando ela estava aqui, fazia calor, como um ambiente dos mares do sul.

Foi ao banheiro e não fechou a porta. Sempre nua e descalça. Voltou e sentou na poltrona em frente à que eu estava.

– Nunca fiquei com alguém com uma diferença de idade tão grande...

– É eu devo ter 20 mais que você.

– Está amanhecendo...

– Está; passamos a noite acordados...

– Quer dormir?

– Você quer?

Não respondeu, mas levantou e foi para o quarto. Eu fiquei olhando as garrafas de vinho que havíamos bebido. Eram três, de gargalo fino e comprido, com rótulos dourados. O sono veio e eu dormi sentado, ouvindo rock e olhando as garrafas vazias. Acordei quando ela, vestida, voltou para a sala e falou que tinha de ir embora. Foi aí é que fez a referência às 16 horas que havíamos passados juntos.

E aproveitou para corrigir:

– Meu nome não é Flávia.

– Não!?

– É Luisa...

Não pedi desculpa, não falei nada. Ela não estava com jeito de estar magoada. Apenas fizera uma correção. Mas, de qualquer modo, isso era importante para ela, que eu registrasse o nome correto.

janeiro 2008/ Porto Alegre

Um poema soturno


A luz apagou
e não vi mais o tempo...
Fiquei sonhando.
Ouvindo o tempo
bater de leve.
E você, por que não veio?

Pelotas, 1963

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O verão com Sílvia



Este foi o primeiro conto que escrevi. É meio bobinho, mas, vá lá! Como experiência, pelo menos, valeu... 
Ele tem uma certa leveza, um tom ingênuo que me agrada. 
E me deu a chance de mencionar fatos, coisas e situações da época em que imaginei o transcurso da narrativa.



O verão com Sílvia


Para Cristine, que ama um pelotense...


Era carioca e se chamava Sílvia; os pais tinham vindo passar as festas de fim-de-ano com os parentes do Sul.
O que me deslumbrou, na hora, foi o cabelo: castanho, liso, muito liso, escorrido. Nenhuma guria que eu conhecia tinha cabelo assim, caindo abaixo dos ombros, quase alcançando o meio das costas. Ah! e também o porte; ela era esbelta, elegante. Geralmente vestia blusa, quase sempre branca, e saia.
A primeira vez que a vi foi no final de uma manhã tépida. Ainda não havia começado de fato a fazer o calor forte do verão. Estávamos todos na casa do primo dela, um bangalô de meio de quadra, dobrando a esquina da rua onde eu morava. Em torno da casa havia muito verde, arbustos, flores, algumas árvores mais para o fundo, no pátio.
— Que brinquedo bonito!
Hummm... aquilo me dizia respeito! O brinquedo era meu: uma reprodução bem feita de um desses equipamentos usados na construção de estradas.
— É amarelo. Gosto do amarelo.
Sim, era de plástico amarelo, bem dessa cor de máquinas rodoviárias.
Assim nos conhecemos. Sem apresentações. Soube do nome dela mais tarde, ouvindo-a ser chamada pelo primo e pelo irmão mais novo, que viera junto.
— É como aquelas máquinas de Brasília.
Uau! ela conhecia o mundo.
— Brasília?
— É, meu pai vai a Brasília seguido. Uma vez, nos levou junto, toda a família. Fomos de avião, de manhã e voltamos à tarde. Foi lá que vi máquinas assim. No Rio nunca tinha visto uma de perto.
— Ah!
Só me ocorreu uma exclamação, eu não sabia mesmo o que dizer.
Mas ela era fascinante, eu precisava prender sua atenção. E aventurei:
— Meu pai é contra Brasília. Ele detesta o Juscelino.
— O meu é a favor. Ele adora o Juscelino.
Hum..., que mancada.
Resolvi mudar de assunto logo:
— Vocês vão ficar aqui por quanto tempo?
— Acho que mais uma semana. O Fernando e a Marília vão ao Uruguai, visitar outros parentes. Mas resolveram deixar a gente aqui. Vão só eles...
— Quem é Fernando e Marília?!
— Ah! nós chamamos papai e mamãe, chamamos pelo nome. Eu e o meu irmão os chamamos assim.
Bah! pensei: que coisa chique. A maioria dos meus amigos chamava pai e mãe de senhor e senhora... Eu me considerava moderno por usar só “pai” e “mãe”...
E justamente naquela hora, que a conversa estava engrenando, a tia dela, a dona da casa, aparece para avisar que minha mãe telefonara me chamando para o almoço.
Durante a tarde eu não consegui voltar a ver Sílvia. Tive de levar um texto sobre as férias, que havia escrito para o programa de rádio do colégio na rádio dos padres. Bom, mas pelo menos eu podia contar isso para ela, que iam ler o meu texto na rádio. Talvez ficasse impressionada.
Depois, precisava passar na casa de outro guri, para devolver as “Eletrônica Popular” que o pai dele havia me emprestado. Era curioso, o pai do meu amigo mantinha, na mesma estante, a coleção da revistas lado a lado com livros da Editora Vitória, que editava livros comunistas! Na época, claro, eu não tinha a menor idéia do que eram aqueles livros. Em todo caso, revistas de eletrônica e livros sobre comunismo eram mistura bem heterogênea!
À noite, porém, tive sorte. De tardezinha, o primo dela passou lá em casa e me convidou para jogar cartas com eles. Como ainda tivesse de tomar banho e jantar, quando cheguei no bangalô, já estavam jogando. Apenas Sílvia não jogava. Ao me ver na casa, fez um sinal para que saíssemos dali.
Fomos para o jardim. No início, não falamos nada. Até que ela convidou:
— Vamos dar uma volta na quadra?
Aceitei, cruzamos o portão e viramos à direita... Fomos até a esquina, dobramos e continuamos caminhando.
A certa altura, ela segurou a minha mão. Ah! eu nunca tinha andado de mãos dadas com uma garota. Que sonho! Continuamos caminhando assim, de mãos dadas; sem falar nada. Olhei para o céu, dava para ver as Três Marias e o Cruzeiro do Sul.
— Você (ah! como é doce o você dos cariocas!) conhece as constelações?
— Não, só essas duas... mas elas são tão óbvias, não é?
— É.
E acrescentou:
— Como o céu daqui é claro, parece transparente... Como tem estrelas! Tem mais estrelas aqui do que no Rio.
— Não pode ser... o céu é o mesmo...
— Tem sim, aqui tem mais...
Bem, eu não iria contrariar a mulher que amava... Pois, sim, eu já estava apaixonado. E pela segunda vez — (a primeira fora uma inglesinha (!) que morava na casa em frente à nossa, mas o pai dela, que era gerente do Anglo, o frigorífico, teve de voltar para a Inglaterra.
Dobramos mais uma esquina e passamos na frente matriz da paróquia.
Puxei-a pela mão e mudamos de calçada. Ela deixou-se levar. Da outra calçada, dava para ver, lá no alto da torre principal, a estátua do Cristo com o coração iluminado.
— Olha, o coração vermelho...
— É mesmo...
Continuamos a caminhar. Em determinado altura, os muros formavam um recuo e criavam um campo de sombra.
Aí, foi a vez dela me puxar pela mão. Foi me levando lentamente para o recanto escuro...
— Queres um beijo?
Eu não estava preparado para isso. Eu era apenas um menino romântico... Gelei na hora... Mas, em seguida, um sentimento cálido se espalhou por todo o meu corpo...
— Quero sim...
Então, ela aproximou os lábios dos meus e beijou suavemente... Senti que parecia flutuar, os olhos fechados, um torpor, uma dormência... O que durou segundos pareceu horas, até que acordei com ela falando bem baixinho e perto do meu ouvido:
— Gostou, gauchinho...?
— Gostei... muito...
— É teu primeiro beijo?
Meio encabulado, mas honestamente, respondi que sim, fora o meu primeiro beijo.
Voltamos a nos dar as mãos e continuamos a caminhar.
Depois de alguns passos, falei:
— Não sou gaúcho, sou pelotense...
Ela riu e disse apenas:
— Pretensioso...
Não falamos mais nada... Terminamos de dar a volta na quadra e quando nos aproximamos da casa do meu amigo, soltamos as mãos...
Entramos e constatei, surpreso, que ninguém havia dado falta de nós. Ninguém notara que saíramos os dois sozinhos... Suspirei aliviado e deixei-me ficar olhando os que jogavam... Mas meus olhos não viam nada...

Passo de Torres/SC, abril/2006

terça-feira, 26 de abril de 2011

Descasamento


Vende-se um par de alianças sem solda.
Cravejada de brilhantes.
Duros.
Cada pedra,
o nosso ex-amor cristalizado em estelar composição.
Um anel de diamante,
solitário,
também se vende.


Porto Alegre, 1971

sábado, 23 de abril de 2011

Casamento


Os nossos livros
misturados na estante...
Nossos gostos diferentes.
O teu Drummond,
o meu Quintana.
O teu Sinal Semafórico,
o meu Itinerário de Pasargada.
Os teus Borges,
os meus Sábato.
Amas os latinos e os franceses.
Eu prefiro os nacionais e os ingleses modernos.
Ah! caio nas tuas tentações
de Márquez, Llosa e Cortazar...
Mas logo desisto,
com uma saudade de Jorge Amado,
Jubiabá,
Mar Morto,
Capitães de Areia...


Porto Alegre, 1973

sexta-feira, 22 de abril de 2011

De um homem apaixonado


Calça de veludo
negro
e blusa
amarela...
Vinhas assim,
luminosa,
por entre as árvores.
O sol se punha lá atrás
e caminhavas descuidada.
Depois, a prosaica massa com sardinha
no apartamento pequeno em frente à praça,
o sofá
e as marcas dos meus tênis
no branco da parede ...


Porto Alegre, 1972

Foz


Nome tão pequeno para tantas possibilizades.
Pode lembrar partidas, mas, também, chegadas.
Descortina o oceano,
resguarda o rio.
É caminho de ida, é caminho de volta.
Saudades ficam, esperanças se abrem.
Ela fica sempre ali, melancólica, a foz;
garganta comprida
esgoelada pelas enormes pedras dos molhes.


Passo de Torres, 22-04-2011

Três poemas para mulheres maduras

Um ex-colega dos tempos do Colegial, que que se esforça para ser poeta e é agitador cultural,  enviou-me algumas publicações dele e de seus confrades. 
Li e resolvi me impor um desafio: escrever tão mal como eles.
Então, fiz os três poemas que vão a seguir e que acabaram me frustrando, pois não, não consegui escrever tão mal assim...
E, afinal, publicados na net,  pelo que já me disseram, estes versinhos fazem sucesso entre as mulheres maduras...

Para Maria Celeste, que ajudou a recuperar estes poemas...(*)


Primeiro

Olha-te... não no espelho real.
Examina-te, em vez disso, no espelho da alma.
Os teus olhos: não é que eles incendeiam uma certa luz intensa?
E o rosto? Ah! teu rosto é suave e redondo.
O teu porte elegante.
És uma bela mulher.
O que esperas?
Por que estas pernas bem feitas não saem em busca da aventura?
Ah! sei, já andaram por caminhos inesperados e sedutores?
Então, por que estão como navios encostados no cais da solidão?
Insegurança, medo?
Vem, me dá a mão e vamos seguir por mais um trecho desconhecido.
Sei que vais gostar...


Segundo

O dia nasceu com um sol brilhante.
Afastas a cortina e observas as cores lustrosas das folhas verdes.
Sim, é primavera!
Não é primavera no teu coração?
Pois era para ser.
É para ser sempre primavera no teu coração.
Tens um sorriso sedutor,
uns olhos convidativos,
um andar que atrai os olhares dos homens.
Por que te sentes no inverno da vida?
Nada disso!
Desperta, abre os olhos para o verde da tua vida,
para a seiva que alimenta o teu afeto,
para o vento renova os sentimentos...
Vem, mulher, retoma o destino nas tuas mãos!
Deixa para lá essa história de tempo que passou.
O que te importa é o futuro;
é nele que vais reencontrar a satisfação dos desejos que não esqueceste.

Terceiro

Os homens não valem a pena?
Os homens são todos iguais?
Os homens só querem sexo?
Sim, pode ser.
Mas, o que importa, assim no amor - como na vida mesmo, em tudo na vida -, é persistir na busca.
Não deixa que a experiência frustrada impeça a procura pelo que tu sabes que existe e queres.
Há homens que valem a pena!
Há homens que são diferentes!
Há homens que pensam em sexo, mas não só em sexo.
Afinal, tu também não pensas em sexo?

Passo de Torres/SC - set-2008


* Eu os havia perdido, mas a Celeste por sorte tinha uma cópia

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Desobediência



Me ensinaram que nunca
se deve começar uma frase com pronome oblíquo.
Também me ensinaram
que devemos amar o próximo como a nós mesmos.
A freirinha (“ma soeur”) aterrorizava
os meninos do Jardim de Infância
com a possibilidade dos castigos do Inferno.
Que pecados podem cometer os meninos
do Jardim de Infância?
Que pecado aterrorizar os meninos
do Jardim de Infância com castigos infernais!
Me ensinaram que nunca se deve começar uma frase com pronome oblíquo.
Me ensinaram que devemos amar ao próximo como a nós mesmos.
Coisas difíceis de obedecer.

Porto Alegre, 1971

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Cidade Baixa





É sábado
e eles
estão bêbados.
São negros.
Dois a dois,
encostados, parecem pendurados à parede azul.
Ali, de pé, duros, babam ...
As cabeças balançam de leve:
um pouco para frente,
um pouco para o lado.
É o único movimento que fazem.
Quase dormem em pé,
num equilíbrio tão difícil!
No Areal da Baronesa,
em torno,
nada se mexe.
Não há nem brisa no ar.
Os dois negros bêbados, em pé, escorados na parede encardida do bar,
são como gêmeos,
irmãos em farrapos.
Mais adiante, o casario traça uma perspectiva antiga.
Mulheres conversam e crianças brincam às portas.
Por aqui, por ali, corria o Arroio Dilúvio,
o arroio que inundava a Ilhota.
A Ilhota, o Areal da Baronesa...

Porto Alegre, 1971