quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Solteirões

Que tristeza, quase angústia, me dão
aqueles edifícios
de paredes laterais altas, retas, sem janelas.
Foram construídos assim,
na expectativa
de que outro(s) logo fosse(m) erguido(s) a seu lado.
Mas não, lá ficaram eles sozinhos,
com o casario baixo no entorno.
Como simples solteirões...



Porto Alegre, 1984

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

La soudaine inspiration


La jeune femme en fleur
Chemise bleue

Sur bouse noire,
Pantalons en jeans
Effiloché dans le genou,
Hipermoderne!
Toute couronné
Par une echarpe jolie
Enroulé dans le cou, en dépit d'être l'été.
C'est la belle jeune Française
Qui vien dans le métro.
Paris - set. 2014 - ao métro da Linhe 6, peut-etre la plus belle linhe do métro parisiense

sábado, 6 de setembro de 2014

31 de dezembro

(Para o Guilherme, que também viu os balões)

É Ano Novo
e os balões sobem para os lados da Lomba do Cemitério.
Inusitados!
Afinal,
balões são para junho:
São João, fogueira, pinhão e balões...
Balões não são para dezembro.
Mas aqueles são balões
e sobem
muito vermelhos,
todos iguais um ao outro,
e é dezembro,
pontos vermelhos na noite bem escura!
Um, dois, três...
Quatro! Quantos!
Que coisa...
Estou sonhando,
ou é o champanha?
Balões no ano novo?!


Porto Alegre, 19972


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Ilusionismo





Ah!  como custei
a descobrir os teus truques!
Lenços, pombas, fitas,
coelhos, baralhos e cartolas...
Escondias na manga
os teus pensamentos mais secretos.
E sorrias!
Uma moedinha sob a ponta da orelha
aparecia brilhando...
As mãos viradas e reviradas: nada!
Nada?

Porto Alegre, 03/10/1984
(revisado em ago 2014)


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Um barco e nada mais


O nome ainda aparecia bem nítido: "Vencedor" 
- Aquele era o meu iate",
exclamou meu avô,
o velho Germano,
muito magro e alto.
À margem do São Gonçalo,
em terra, escorado,
um barco de madeira apodrecia ao relento.
Fazia uma figura bonita, meu avô,
com seu cabelo branco,
levemente amarelado.
Vestia um casacão pêlo-de-camelo
e olhava o barco abandonado.
Não falou mais nada,
nem eu.
Tinha certo ar superior,
de quem teve tudo na vida,
o meu avô.
Todo o luxo, todo o prazer,
mas nada de revolta por
ter tudo perdido.
- Muito prazer, ouvi falar muito de você",
poderia eu ter dito para o barco.
- "Seu antigo comandante,
depois do jantar,
contava dos temporais na Lagoa,
no caminho entre São Lourenço e Rio Grande.
Contava da lua-de-mel passada a bordo,
em meio a uma tempestade.
A doce Celina dormia,
inconsciente do perigo,
e ele temia!
Mas não disse nada.
Voltamos para casa,
os dois,
trilhando as calçadas da cidade
sob um sol que se punha lentamente...


Porto Alegre, 1973

sábado, 8 de outubro de 2011

As ciclistas de Florença

As ciclistas,
as ciclistas florentinas.
Impacientes e
lindas,
deslizam velozes sobre
as pedras milenares no entorno da Catedral.
A fila dos turistas que sobem para a "cupola" toma-lhes o espaço,
mas, lá vão elas. Ou vêm.
Passam uns rapazes também, e até uns velhos. Todos pedalando.
Mas estes não interessam.
Lá vão elas, e vêm, louras, morenas, até orientais (japonesa, chinesa, coreana, que sei eu).
Todas "bellissime"

Florença, It, set. 2011



sexta-feira, 13 de maio de 2011

Paixão


Carinhos furtivos,
beijos rápidos...
Ir, vir,
e afligir...


(Porto Alegre, 1972)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O mal do século



Ah! o mal do século.
Com a virada do século,
o Mal do Século deixou os alvéolos
e
 se
   encastelou
     nas
       almas...

Porto Alegre, 1971
(Século passado, portanto)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O pó da terra



Os campos já foram semeados.
Veio o arado,
a grade,
a semente.
Tudo misturado ao pó da terra.
A cidade, ao longe, está envolta numa névoa vermelha.
É a alma da terra, moribunda,
lentamente indo para o Céu.


Região do Planalto/RS, 1971

domingo, 1 de maio de 2011

Um poema soturno


A luz apagou
e não vi mais o tempo...
Fiquei sonhando.
Ouvindo o tempo
bater de leve.
E você, por que não veio?

Pelotas, 1963

terça-feira, 26 de abril de 2011

Descasamento


Vende-se um par de alianças sem solda.
Cravejada de brilhantes.
Duros.
Cada pedra,
o nosso ex-amor cristalizado em estelar composição.
Um anel de diamante,
solitário,
também se vende.


Porto Alegre, 1971

sábado, 23 de abril de 2011

Casamento


Os nossos livros
misturados na estante...
Nossos gostos diferentes.
O teu Drummond,
o meu Quintana.
O teu Sinal Semafórico,
o meu Itinerário de Pasargada.
Os teus Borges,
os meus Sábato.
Amas os latinos e os franceses.
Eu prefiro os nacionais e os ingleses modernos.
Ah! caio nas tuas tentações
de Márquez, Llosa e Cortazar...
Mas logo desisto,
com uma saudade de Jorge Amado,
Jubiabá,
Mar Morto,
Capitães de Areia...


Porto Alegre, 1973

sexta-feira, 22 de abril de 2011

De um homem apaixonado


Calça de veludo
negro
e blusa
amarela...
Vinhas assim,
luminosa,
por entre as árvores.
O sol se punha lá atrás
e caminhavas descuidada.
Depois, a prosaica massa com sardinha
no apartamento pequeno em frente à praça,
o sofá
e as marcas dos meus tênis
no branco da parede ...


Porto Alegre, 1972

Foz


Nome tão pequeno para tantas possibilizades.
Pode lembrar partidas, mas, também, chegadas.
Descortina o oceano,
resguarda o rio.
É caminho de ida, é caminho de volta.
Saudades ficam, esperanças se abrem.
Ela fica sempre ali, melancólica, a foz;
garganta comprida
esgoelada pelas enormes pedras dos molhes.


Passo de Torres, 22-04-2011